Reza a lenda que ao atravessar a ponte para a ilha, é prudente pedir licença as bruxas. Iniciei um pensamento, prece/passaporte, com intenções Franciscanas, sentimentos unicamente de contemplação e fui seguindo, enumerando uma série, com vários episódios, de promessas contendo respeito, na esperança de uma delas, ser aprovada pela guardiã, mas não consegui terminar pois o Uber já tinha atravessado a ponte, quase flutuando harmonicamente sobre montanhas, rios , florestas, parando em uma curva, na Lagoa da Conceição, para dar passagem a pedestres. Olhei para o lado e na loja Abracadabra, uma bruxa, exposta na vitrine, piscou o olho. Entendi a licença concedida.
Em frente ao TILAG[1] as malas nos levaram até ao quarto onde abrimos a janela e deixamos a névoa com a chuva fina, entrar com a Magia da Ilha, acompanhando os movimentos, maestrinos, regendo a abertura das malas, na esperança, de um sol maior no dia seguinte.
Chovia quando compramos a Tarifa Lacustre Regional P3 Turístico Araçás que, atende a população que mora na Lagoa. Entramos no barco, sentamos em frente a janela e nos unimos aos estudantes, trabalhadores, barqueiros, moradores, sonhadores, poetas, turistas que irão se espalhar pelos 23 TRAPICHES[2] atendidos pela empresa Cooperbarco.
1756
A névoa deu uma trégua e o sol atravessou o Arco de CANTARIA[3] que emoldura a porta da igreja, iluminando o ARABESCO[4] que venho entalhando na grade de jacarandá que separa o altar do salão.
O pároco açoriano Domingos Pereira Teles juntamente com o mestre de obra me incumbiu de criar esse entalhe devido ao meu conhecimento do estilo barroco que aprendi nos Açores.
Me levantei, depositei o formão e o MACETE[5] sobre a mesa, passei as mãos sobre os braços suados tirando os fragmentos da madeira, caminhei até a porta me esticando com as mãos nas cadeiras e saí para a rua ver a Igreja de Nª Sª das Necessidades, faltando apenas o acabamento da Torre Sineira com previsão antes do mês de junho para que se possa unir a inauguração com a comemoração da festa no dia treze de junho de mil setecentos e cinquenta e seis, em homenagem a Santo Antônio de Lisboa.
Vinte e nove de outubro de dois mil e vinte e três. Após a troca de ônibus nos terminais, chegamos a Santo Antônio em dia de sol destacando as cores dos casarios Açorianos. Caminhamos até a igreja e entramos. Minha esposa sentou-se em contemplação. Fui até próximo ao altar onde me agachei para apreciar o Arabesco de minha autoria.
O balanço do barco, São Jorge III, singrando a névoa e a chuva fina, era rotina para os jovens estudantes com sua dinâmica alegre e espirituosa fazendo um contraponto com o som repetitivo do motor da embarcação. As conversas entre as senhoras com sacolas de compras e vizinhos da Lagoa não incomodava os olhos ávidos das câmeras dos celulares dos visitantes e mochileiros em uma hipnose de beleza coletiva.
O motor diminuiu sua marcha anunciando a chegada ao Trapiche de nº 7 e o barqueiro em um rápido e preciso movimento enlaçou um pontilhão de madeira para atracar o barco. Mochileiros e moradores iniciaram uma fila para entrar e um grupo de pessoas com sacolas de compras ficaram em pé se equilibrando no balanço das águas, aguardando o auxílio do barqueiro.
7000 anos
Imprimia mais força, naquela tarde de sol, segurando firmemente a ferramenta de pedra pontiaguda para sulcar, possessivamente, linhas na gigantesca pedra negra que se submetia aos riscos, impávida, em frente ao mar. A minha frente vários espectadores, jovens e adultos, olhavam incrédulos a performance. Alguns friccionavam fragmentos de pedra sobre outras mais duras para desbastar, criando uma ponta que tem o objetivo de produzir riscos e sulcos. Eram meus admiradores e auxiliares que mantinham as ferramentas atualizadas. Minhas mãos e suas linhas, apesar de grossas, ficavam cortadas com o esforço para sulcar nas pedras negras as formas dos irmãos e amigos do nosso grupo e as linhas que povoavam a minha mente resultante da observação do movimento do vento e das ondas do mar.
Trinta de outubro de dois mil e vinte três. O uber foi até ao final da rua Raul Pereira Caldas, fez o retorno em frente a Torre de Salva Vidas de cor amarela e retornou. Descemos ao lado do restaurante Beira D´água e caminhamos em direção ao Museu Arqueológico, a céu aberto, criado para divulgar e preservar as obras rupestres. Chegamos ao final da caminhada na areia e subimos em direção ao Morro da Aranha, seguindo um caminho marcado por informações sobre os grafismos Arqueológicos que datavam de 7000 anos. Paramos sob uma estrutura de madeira e cordas que tinham o objetivo de proteger o tesouro do sol e vento. Parei demoradamente em frente aos desenhos que produzi. Olhei para as linhas nas pedras e para as minhas mãos. As mesmas linhas curvas. No alto, construído em tubos de ferro, meus irmãos e amigos do grupo me olhavam inertes sob o vento.
Trapiche vazio de quem estava para sair e cheio de quem acabava de chegar, seguiu sua vida de intermediário, enquanto o barco seguia seu rumo mostrando a paisagem de vilas, costas de areias brancas e pedras, trilhas e matas, aos visitantes, turistas embevecidos, como eu, que incansavelmente olhava o movimento do barco parando e trocando de gente nos Trapiches .
Falei para o barqueiro que vamos saltar no nº 16 onde tem uma Escola Municipal, Igreja e a Sra. Onélia. Acenou com a cabeça e um olhar que falava: - Não precisava tanta referência!
A Sra. Onélia, conhecemos quando retornando de um passeio, no finzinho de tarde, passando perto da entrada para o Canto do Araçá. Minha esposa vendo o atracadouro dos barcos, sugeriu conhecermos a costa da Lagoa. Compramos os bilhetes de ida e volta e entramos no barco que saiu junto com a chuva que caiu. Sentados em frente a janela vendo os pingos patinando nos vidros criando mapas imaginários que nos faziam suspirar ao lembrar das paisagens que enfeitaram nossos dias. O barqueiro interrompeu nossos suspiros:
- Vocês vão saltar aqui no Trapiche nº 16. Aguardem que retornaremos dentro de 1 hora.
- Olhamos em volta e só a chuva. Retruquei:
- Vocês voltam mesmo?
Ele respondeu de dentro do barco se afastando:
- Deem uma volta. Tem um centrinho, Igreja e restaurantes!
Abrimos o guarda-chuva e fomos seguindo por um caminho de madeira que levava a todos os restaurantes. Chegamos ao último e uma Sra. veio nos atender. Pedimos uma garrafa de água e uma conversa simpática e cordial nos tranquilizou sobre o barco, horário e nos convidou para almoçar em outro dia.
- Trapiche nº 16! Falou o barqueiro.
Agradecemos e seguimos pelo caminho de madeira, já conhecido, até ao restaurante da Sra. Onélia que nos recebeu carinhosamente. Foram duas horas de conversas sobre a vida, encontros, histórias de tudo, inclusive de pescadores e os pratos de tainha frita, filé de robalo, arroz, pirão, caipirinha e um grande e caloroso abraço de despedida.
As cinco horas o barco nos recebeu do Trapiche e seguimos para a estação. Quietos, em meio as conversas que se embaralhavam na embarcação não pude deixar de pensar na Magia da Ilha que entrou em nosso quarto de hotel com a névoa e a chuva fina, quando abrimos a janela e se espalhou por nossa roupa e pele nos proporcionando o Ânima, o Prãna, as sensações especiais da transposição no tempo, o caminhar e tocar a terra negra e o quartzo bruto de cor lilás na trilha de 1,3 Km, do Gravatá.
O abraço da Sra. Onélia nos trouxe o conforto de que a Ilha nos acolheu.